AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS E SUA RELAÇÃO COM O LEITOR: COMO O DISCURSO SOBRE OS QUADRINHOS MUDOU O DISCURSO DOS QUADRINHOS (por Diego Figueira - postado na versão do autor)
Nos últimos anos, a experiência de ler histórias em quadrinhos se transformou, deixando de se resumir a comprar uma revista na banca, lê-la e descartá-la. Hoje, boa parte dos leitores sabe de antemão a data prevista para uma revista chegar às bancas, quem são os seus autores, se haverá continuação ou não, etc. Quando a lê, já teve contato com uma série de textos a respeito daquela história e depois ainda participará de atividades que produzirão ainda mais textos criticando aquela obra.
A proporção deste tipo de leitor no mercado de histórias em quadrinhos atualmente é muito significativa se considerarmos que as tiragens das principais revistas de circulação mensal no Brasil estão entre 10 mil e 25 mil exemplares (segundo fontes não-oficiais), o que corresponde a cerca de 10 por cento das tiragens no final da década de 80. Estes números são muito próximos da quantidade de usuários de internet que participam de fóruns de discussão sobre quadrinhos.
O maior fórum de discussão na Internet sobre quadrinhos, o MBB, possuia, em junho de 2006, 2.426 membros. No site de relacionamentos Orkut, apenas a maior comunidade em língua portuguesa sobre quadrinhos tem 12.675 membros. Além disso, o site Universo HQ (www.universohq.com), o principal veículo de informação sobre o tema no Brasil, tem uma média de 35.000 acessos por dia e sua comunidade no Orkut tem outros 3.097 membros.
Assim, o perfil destes fanáticos torna-se a principal referência que as editoras têm do seu público leitor e isto ditará algumas características do mercado que observamos recentemente. É com eles que os editores parecem dialogar a maior parte do tempo quando escrevem editoriais e notas nas revistas.
Estes espaços parecem ter sido tomados por leitores assim nos últimos anos. As seções de carta não atendem mais a dúvidas mais simples sobre a história publicada na edição anterior. A maioria das cartas são relatos (muitas vezes extensos) de como esse leitor começou a colecionar revistas e suas opiniões e interpretações sobre os rumos que as histórias vem tomando, em geral fazendo comparações com histórias bem mais antigas.
Além disso, maior parte dos esforços das editoras na área de publicidade também tenta atingir estes leitores, fazendo com que acompanhem todas as revistas de uma linha editorial (o que se chama de “universo” de personagens). Espera-se que cada vez mais leitores se tornem colecionadores de todos estes títulos e acompanhem todos os eventos que envolvem os personagens de uma mesma editora ou todos os quadrinhos de um autor.
Adotando uma postura bem mais ativa na expressão de seus gostos e interesses junto aos responsáveis pela produção das revistas que eles lêem, estes leitores desempenham um papel importante no atual mercado de quadrinhos. As relações dialógicas entre os dois lados do processo de produção e leitura se tornaram mais evidentes nas últimas duas décadas a ponto da voz dos leitores se tornar claramente perceptível no discurso das revistas.
Desde meados da década de 70, leitores começaram a debater quadrinhos e outros passatempos em fanzines, encontros e convenções temáticas; mais tarde revistas especializadas começaram a surgir. Na década de 90, a internet ampliou muitas vezes este espaço para os fãs se expressarem a respeito do que liam.
Com o acesso a estes meios mais formais da enunciação, os leitores deixaram de discutir em contextos completamente informais, restritos e pouco duradouros para deixar suas impressões em textos que tinham um alcance muito maior. Muitos destes leitores se tornaram jornalistas e profissionais da mídia em geral, ajudando a criar um espaço para se falar sobre quadrinhos em cadernos de cultura e lazer nos jornais, em revistas de variedades e programas de televisão.
Somam-se a isso vários festivais e premiações anuais para as histórias em quadrinhos ao redor do mundo, além de um crescimento do interesse das universidades pelos quadrinhos enquanto forma de arte e parte da indústria cultural.
Em todos estes meios, se cristalizam os discursos sobre o que é uma boa história em quadrinhos, que temas têm melhor aceitação, que estilo de narração verbal e não-verbal é considerado mais interessante, que autores e personagens têm mais prestígio, que formatos de publicação são preferidos para cada gênero, etc. Estes valores originaram os paradigmas dos quadrinhos nos últimos anos, determinando tendências, identificação entre grupos e distinções entre períodos na história da nona arte.
Para perceber quais são estes valores difundidos pelos leitores, analisamos as opiniões presentes em textos informativos, resenhas de revistas, entrevistas com autores de quadrinhos, colunas e editorias que fizessem uma reflexão sobre o mercado. Com base nestas idéias, selecionamos 100 histórias em quadrinhos (histórias fechadas, minisséries ou arcos de poucos capítulos dentro de uma publicação mensal, como Homem-Aranha, por exemplo) que poderiam compor um cânone dos quadrinhos desde 1980. Não é exatamente a validade deste cânone que nos interessa discutir, mas que valores expressos pela comunidade de leitores e profissionais dos quadrinhos estão presentes nas obras citadas.
Os resultados desta pesquisa é que passaremos a apresentar aqui nas próximas semanas. Nestes textos, falaremos das várias formas como o mercado de quadrinhos tem dialogado com seus leitores na construção de suas atuais referências.
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